Caruaru-Pe, 04 de Dezembro de 2016, Segundo Domingo do Advento
Aos colegas no ofício de bispo,
Saudação e votos de Paz no Senhor

 

Dirijo-me a Vocês para manifestar minha surpresa ao ler no site da IEAB o estranho texto de ameaça ao movimento de “Aliança de Comunidades Anglicanas na IEAB”. Surpreendo-me ao perceber que nossos bispos diocesanos só tenham “lido” na Declaração da “Aliança” seu caráter supostamente cismático, o qual enfatizam no próprio título da Mensagem, por todos assinada e tornada pública a toda a Igreja. É lamentável, pois tratava-se justamente do contrário, o que percebi, ao participar de reunião como convidado a ajudar na reflexão. O equívoco só revela o clima de acirramento das relações e dos debates entre nós.

 

O grupo que se reunira, inclusive alegando ter sido estimulado pelo bispo diocesano, o qual recomendara, se articulassem para manifestar seus pensamentos e propostas à Igreja, o grupo, dizia, sentia-se preocupado com o clima de intolerância presente hoje na Província (e fora dela) e com o afunilamento das discussões. A ideia era estimular debate mais amplo em torno de grandes desafios à Igreja no mundo de hoje, fomentar o diálogo, propor iniciativas missionárias, e chamar a atenção para a atenta escuta do “sensus fidelium”, particularmente quanto a certas matérias mais sensíveis e que merecem amadurecer por tempos mais longos, para que não corramos o risco de pôr em jogo o valor precioso que nos deve caracterizar, o da unidade e comunhão.

 

A Declaração publicada pela “Aliança”, de fato, apenas recorda princípios da fé cristã e da identidade anglicana, com os quais estamos comprometidos(as), a ponto de alguns comentários tentarem desclassificá-la, ao alegar seu caráter “repetitivo” e “sem novidades”…  como se confessar a fé cristã e lembrar nossa identidade não fossem sempre “renovar” nosso compromisso com a herança bíblica e a venerável tradição que garante à Igreja sua perene vitalidade e continuidade.

 

Foi escolhido de propósito o termo “aliança”, exatamente, por ser radicalmente bíblico e de grande profundidade teológica, enquanto diz respeito, antes de tudo, à qualidade de nossas relações, uma vez que nos envolve pessoalmente e compromete com Deus, iniciador do “pacto”, e entre nós; isto para evitar qualquer conotação “política”, de “partidarismo”, ou de cunho “ideológico”. “Na” IEAB deseja indicar claramente a perspectiva de iniciativa no interior da Igreja, inclusive no sentido de “instituição”, da qual, com alegria, somos membros.

 

A Mensagem dos bispos diocesanos chama a atenção para novos cânones disciplinares que atribuiriam exclusivamente aos bispos o poder de autorizar ou não qualquer iniciativa ou movimento de ideias e de organização na Igreja. Sem dúvida, o ministério de bispo tem papel importantíssimo na articulação e na liderança do corpo da Igreja e, em casos extremos, devidamente comprovados, até de árbitros e juízes. Mas é difícil pensar que deva ser o único órgão a definir previamente o que se pode e o que não se pode na Igreja. Sempre temos vivido no Anglicanismo com a certeza de que entre nós se garante o direito à liberdade de pensamento, de opinião e de iniciativa, a não ser que, comprovadamente, se trate de heresia formal ou de evidente incitamento a cisma, o que não é absolutamente o caso. Com efeito, do princípio de “unidade na diversidade” decorre, naturalmente, o pluralismo. Sem dúvida, os bispos devem ser informados e atentamente acompanhar tudo o que se refere à vida da Igreja, mas não se pode chegar a tal centralismo, que não se vê nem mesmo na tradição e na estrutura romanas. Haveria o perigo de a Igreja tornar-se reflexo de seus bispos e não expressão de seu povo.

 

Ora, justamente o que o “ethos” anglicano não parece desejar promover é um episcopado com poder monárquico, do qual dependa cada passo. Onde ficaria a possibilidade legítima de discordar e dissentir? Reverendo vindo de outra denominação e que conviveu por anos entre nós costumava dizer: “Venho de uma Igreja onde dissentir era crime; chego a uma Igreja onde dissentir é um direito”. É notória, em outras províncias, a existência de diferentes correntes de pensamento, iniciativa e organização. Um eloquente exemplo nos vem da Inglaterra que, por anos, manteve “bispos visitantes”, jocosamente denominados “bispos voadores”, em dioceses nas quais havia comunidades ou paróquias em desacordo com seus próprios bispos acerca da ordenação feminina.

 

Causa surpresa que a Mensagem não julgue a Declaração pelo que expressamente diz, mas pelo que poderia ser a suposta intenção nela contida. Ora, regra elementar de interpretação, fora e no âmbito do Direito, exige que  qualquer julgamento se dê  em base ao que formalmente se afirma e não em base ao que se supõe serem as intenções ocultas do(a) declarante.

 

Como biblista, sempre tenho a compreensão de que o Anglicanismo é sábia e sutil tentativa de combinar os três modelos de Igreja presentes no Novo Testamento: o congregacional (a base de governo da Igreja se estabelece no povo); o presbiteral ou presbiteriano (o corpo de ministros articula e supervisiona a Igreja); o episcopal (com a tarefa colegial de articular, supervisionar e moderar o conjunto). No Anglicanismo, os três níveis diversos, com relativa autonomia, são chamados a articular e fomentar a unidade e a comunhão, de modo que o princípio de “unidade na diversidade” se vincule intimamente com o outro, de “autonomia e interdependência”.

 

Aliás, pelo que entendo de eclesiologia anglicana, o princípio de “autonomia e interdependência” deve ter vigência também entre Igrejas diocesanas e entre Igrejas provinciais, de modo que as Igrejas locais, mediante “vínculos de lealdade e afeto”, se mantenham em “obediência” fraterna e recíproca, o mesmo que “interdependência”. O que supõe escuta fraterna, intercâmbio de experiências, paciência para serem “suporte” entre si, capacidade para aguardar e dar passos em conjunto, como têm sido as recomendações das Conferências de Lambeth e era a ênfase do Arcebispo Rowan Williams. Pois, pelo que entendo, o “sensus fidelium” vigente na Comunhão mundial, una e apostólica, deve ser referência para cada membro da mesma Comunhão, já que não se trata apenas de “federação” de Igrejas, mas de “comunhão”, o que me parece mais bíblico e teologicamente mais profundo e com vínculos bem mais exigentes que uma simples organização institucional  . Daí é que se compreende o que se deu no Encontro dos Primazes, ao censurar a Igreja dos Estados Unidos por sua decisão unilateral de estender o rito de casamento a casais homossexuais.

 

Além do mais (desculpem-me lembrar o que já sabem muito bem), quando eventualmente haja incompreensão, desentendimento, mal entendido, ou mesmo conflito, é de bom alvitre e regra canônica que as autoridades eclesiásticas procedam, como primeiro passo, ao diálogo pastoral e não a ameaças, sobretudo públicas, que só vêm dificultar o entendimento e os vínculos fraternos na Igreja.

 

Com saudações fraternas,

 

+ Sebastião Armando, Emérito da Diocese Anglicana do Recife (Nordeste)

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